terça-feira, 23 de setembro de 2014

Educação Ambiental e os Parques














A convite do site Áreas Verdes das Cidades, a Professora Natália Pirani Ghilardi-Lopes da Universidade Federal do ABC redigiu um artigo sobre o tema "Educação Ambiental e os Parques", para o qual convidamos a todos para ler, a seguir. 

Educação Ambiental e os Parques

Professora Natália Pirani Ghilardi-Lopes
Bacharel e licenciada em Ciências Biológicas pela Universidade de São Paulo e doutora em Botânica pela Universidade de São Paulo, tendo desenvolvido seu projeto com ecologia de comunidades marinhas de costão rochoso. Atualmente é professora adjunta na Universidade Federal do ABC (UFABC) na área de Biologia de Criptógamas. Ministra aulas de ecologia, botânica e educação ambiental e orienta no programa de pós-graduação em Evolução e Diversidade da UFABC.

Constantemente ouvimos e lemos na mídia algo sobre a importância dos parques urbanos, relacionada principalmente com o lazer e a melhoria da qualidade de vida dos habitantes nas cidades, mas também com um papel ambiental (melhoria das condições de umidade e temperatura nos centros urbanos, diminuição da poluição sonora, entre outros) e ecológico (corredores de passagem para a fauna, ligando diferentes áreas verdes; local de alimentação, reprodução e refúgio para a fauna urbana e migratória, entre outros). 

A nossa relação com estas áreas verdes foi construída historicamente, provavelmente herdada da época da Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX), onde a intensa urbanização gerou um sentimento de valorização da natureza e da “volta ao campo”. 

É importante diferenciarmos os parques urbanos das Unidades de Conservação (UC) da categoria Parque. Os parques urbanos em geral, são gerenciados pelos municípios e não se constituem em UCs, como definidas pelo Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC – lei 9.985 de 18 de julho de 2000). As UCs do tipo Parque (Parque Nacional, Parque Estadual e Parque Natural Municipal) enquadram-se dentro das unidades de conservação de proteção integral e tem como objetivo preservar a natureza, sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais. Já os parques urbanos, segundo a Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo: 
“...são grandes espaços verdes localizados em áreas urbanizadas de uso público, com o intuito de propiciar recreação e lazer aos seus visitantes. Em sua maioria, oferecem também serviços culturais, como museus, casas de espetáculo e centros culturais e educativos. Também estão frequentemente ligados a atividades esportivas, com suas quadras, campos, ciclovias etc. 
A grande vantagem dos parques urbanos é propor aos moradores de metrópoles a opção de visitar áreas naturais, com paisagens verdes, fauna e flora, sem a necessidade de percorrer grandes distâncias. É neles que grande parte da população urbana desenvolve sua relação com a natureza, o que faz deles uma importante ferramenta para conscientização ambiental.” 

Neste sentido, as cidades da região metropolitana de São Paulo (RMSP), em especial as do grande ABC, são privilegiadas por possuírem um grande número de parques, tanto urbanos quanto Parques Naturais Municipais. O município de Santo André, por exemplo, possui 11 parques, perfazendo uma área de mais de 13 milhões de metros quadrados, grande parte em região de proteção aos mananciais. Já São Bernardo do Campo possui 5 parques, além de possuir cerca de 50% de seu território em área de proteção aos mananciais (Figura 1). São Caetano do Sul conta com 6 parques urbanos. 
Figura 1 - Área de proteção aos mananciais na RMSP definida pela Lei Estadual nº 898/75 (Fonte: SMA, 2012).


A existência destas áreas tão mescladas às cidades da RMSP é fundamental quando pensamos em EDUCAÇÃO AMBIENTAL (EA). Mas, antes de falar sobre isso, gostaria de deixar clara aqui a minha concepção de educação ambiental. Muito mais do que ensinar ecologia ou biologia em áreas naturais, a EA tem o objetivo de promover uma conscientização ampla das pessoas em relação às questões ambientais em nível local e global. Seus principais objetivos, definidos na Carta de Belgrado (1975), são: 
1) consciência: ajudar grupos sociais e indivíduos a adquirir consciência e sensibilidade para o ambiente e problemas conexos; 
2) conhecimento: ajudar grupos sociais e indivíduos a ganhar uma variedade de experiências e adquirir uma compreensão básica do ambiente e problemas conexos; 
3) atitudes: ajudar grupos sociais e indivíduos a adquirir um conjunto de valores e sentimentos de preocupação pelo ambiente e motivação para ativamente participarem na melhoria da proteção do ambiente; 
4) habilidades: ajudar grupos sociais e indivíduos a adquirir habilidades para identificar e resolver problemas ambientais; 
5) participação: providenciar para grupos sociais e indivíduos a oportunidade de ser ativamente envolvido em trabalhos para solução de problemas ambientais. 

Os parques são áreas privilegiadas para atingirmos todos estes objetivos, pois são representações do que ocorre em maior escala quando consideramos a pressão do homem sobre os ambientes naturais de maneira geral (incluo aqui áreas terrestres, costeiras e marinhas). 

Com meus alunos da disciplina “Educação Ambiental” da UFABC, tive a oportunidade de visitar, guiada pela equipe do SEMASA (Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André), o Parque Natural Municipal do Pedroso, uma Unidade de Conservação situada no município de Santo André, e pude perceber o quão rica pode ser a experiência de visitação a uma área verde como esta. 

Penso que as atividades promovidas pelas prefeituras nestas áreas sejam importantíssimas para a conscientização da população em geral e devem ser constantes. Mas, em especial, penso que as atividades promovidas pelas escolas e instituições de ensino superior, de maior prazo (na forma de projetos) sejam importantes para o trabalho com habilidades, valores, atitudes e participação, o que talvez não seja tão fácil de se atingir com as atividades pontuais com o grande público (em fins de semana, datas comemorativas relacionadas ao meio ambiente ou visitações como a que realizei com meus alunos). 

Os parques são áreas muito ricas para o trabalho multi e interdisciplinar, podendo ser trabalhados aspectos como: 
- biodiversidade como indicadora das pressões antrópicas sobre as áreas verdes urbanas; 
- composição da fauna e flora e relações com os fatores ambientais químicos, físicos e geográficos/geológicos (tipo de solo, umidade, temperatura, área, perímetro, localização geográfica....); 
- história e patrimônio geológicos dos parques; 
- história da constituição dos parques (quem criou? Por quê? Quando?); 
- a expansão urbana determinada histórica e socialmente e seus efeitos nos parques; 
- percepção dos moradores do entorno e visitantes em relação aos parques (seu papel e importância); 
- a relação das áreas verdes com a qualidade de vida de moradores de áreas urbanas; 
- diagnóstico dos usuários dos parques e sua relação com as atividades promovidas nestas áreas (educacionais, culturais e de lazer); 
- parques e a proteção da água; 
- criação, aplicação e teste de modelos/atividades de educação ambiental nos parques; 
- estabelecimento de programas de ciência cidadã com estações de monitoramento de longo prazo dos parques; 
- monitoramento de parques com o uso de indicadores baseado no modelo pressão-estado-resposta (veja interessante trabalho de Oliveira & Bitar de 2009 sobre o assunto, disponível em http://www.revistas.sp.senac.br/index.php/ITF/article/viewFile/37/68)
- manejo e gestão dos parques: por que e como são realizados?; 
- o que a política tem a ver com os parques? 

Como visto acima, as possibilidades são várias (outras não listadas também podem ter sido pensadas pelo leitor) e acredito que seja uma questão de motivação e iniciativa conjunta escola-governo-público visitante para que os parques possam ser utilizados de maneira plena, contribuindo para um efetivo entendimento das questões ambientais e das formas de mitigação dos problemas ou adaptação aos mesmos. Precisamos, para tanto, repensar o uso dos nossos parques como ferramentas para a promoção da TRANSFORMAÇÃO individual e coletiva com vistas a um futuro mais sustentável. 

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